Uma resenha, um livro, um percurso.
Faz um tempo enorme que eu não publico uma resenha. Na verdade, faz muito tempo que de fato eu não escrevo uma. E confesso que gosto de escrevê-las. O exercício me ajuda a pensar no que eu gosto em determinado livro, em como a leitura que fiz me toca. E de quais maneiras esses afetos se manifestam.
Quando li pela primeira vez Versos roubados, de Vívian Marchezini, imediatamente pensei: “Eu preciso falar desse livro!” E não foi porque havia um elemento afetivo, por conta do namoro com a autora. Sim, a paixão marcou a leitura, mas a exploração contínua dos poemas, a constante releitura, foram evidenciando que não era a paixão que motivava meu maravilhamento, mas o talento e a excelência da autora.
Obra de estreia de Vívian Marchezini, Versos roubados vem com uma premissa interessante: o roubo evidenciado no título nada mais é que um método de escrita criativa. A pessoa abre um livro de poesia em uma página aleatória. Lê apenas o primeiro verso e o anota. Fecha o livro sem ter lido o resto do poema. Em seguida, escreve uma proposta de continuidade para o verso lido. Assim nasceram alguns dos poemas presentes neste livro da Vívian. Mas se engana quem acha que foram todos. Em termos absolutos, são 22 poemas escritos pelo método, num total de 65 (se eu tiver contado certo, é claro). Isso nos mostra que quase dois terços dos poemas não levam versos de homenagem a outras autoras e o resultado atesta que Vívian não se apoiou no método, tendo desenvoltura para produzir livremente.
E ainda falando de números, Versos roubados está dividido em cinco partes: “Despautar(se)”, “Escavar(se)”, “Fraturar(se)”, “Tecer(se)” e “Reflorir(se)”. Na primeira parte, a poeta como que abre caminhos, rompe fronteiras, traça destinos não cartografados. E essa cartografia é interior, como bem revela o “se” entre parênteses presente no título. Uma proposta de exploração anterior, para além dos parâmetros pré-estabelecidos, mas também como uma espécie de proposta de não se adequar, não encaixado em padrões ditados por outros. E o primeiro poema desta primeira parte, “Caderno pautado”, deixa isso patente.
Já a segunda aprofunda o movimento da parte anterior. Preparado o terreno, retirados os impedimentos, é hora da escavação. Há um mergulho em si, uma observação atenta de si mesmo, um mapeamento de afetos e memórias. A maternidade como desejo-realização-contradição aparece, assim como a identidade da escritora como alguém que se investiga.
Essa exploração, claro, traz perigos. É o que evidencia a terceira parte. A desconstrução, a fragmentação, seja ela intencional ou não, a perda de si, a percepção das interdições, da frustração, dos acidentes. E a pessoa-poética, lírica, resiste, pois precisa reconhecer esses perigos e lidar com eles. É momento de conhecer.
Vem então a quarta parte, com a reconstrução. Mas não é essa a palavra escolhida e sim o verbo “tecer”. Como algo muito mais artesanal, manual, singelo, íntimo. Menos pedra, mais fio. A persona-poética de Vívian tece a tessitura do texto e também de si mesma. É o momento da “Reza”, da descoberta da “Voz”, do encontro com as vozes de outras mulheres.
Por fim, já pronta, a persona então segue para a quinta e última parte, para justamente dar frutos, realizar belezas, lançar para o mundo as maravilhas resultantes desse processo de transformação. Claro, não é uma romantização, uma idealização. As contradições estão presentes, como o belíssimo “Feliciteza”, meu poema preferido de toda a obra. Porém, essa parte é sem dúvida a mais solar do livro, celebrando a primavera e os recomeços, a beleza simples de coisas como um banho de chuva.
Agora, tudo o que escrevi pode ser desnecessário. Sim, este texto em nada se compara à experiência de ler Versos roubados e mergulhar nessa jornada íntima e poderosa. É um livro apaixonante, que nos faz querê-lo por perto, sorvendo a seiva poética, como se cada verso fosse um ramo de uma árvore frondosa e repleta de vida, gotejando alimento, sombra e fresco alento.
Ficha técnica
Autora: Vívian Marchezini
ISBN: 978-65-83300-35-5
Ano: 2025
Páginas: 100
Gênero: Poesia
Editora: Escritoras Brasileiras



